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O CAMINHO DA ROÇA ARNALDO
JARDIM Este nosso país é fantástico. Literalmente, da nossa terra brotam riquezas inigualáveis: batemos recordes atrás de recordes em produtividade na soja; temos os menores custos mundiais na produção de açúcar e álcool, oriundos da imbatível produtividade agrícola da cana-de-açúcar; somos detentores do segundo rebanho bovino do mundo e é incontestável nossa competitividade no frango e no suco de laranja. Nossa competência, no entanto, esbarra num problema graças ao Protecionismo dos países ricos: esta prática impede o crescimento do mercado e desta forma produções maiores geram preços menores. Com isso, os trunfos podem se tornar fardo, como ocorreu com a safra recorde de cana-de-açúcar no ano de 99, que gerou excedentes em açúcar para o mercado externo e que fizeram as cotações internacionais caírem pela metade. Temos, portanto, uma riqueza ilimitada na nossa agricultura que pode nos tornar potência, pavimentando o caminho do fim das desigualdades sociais, mas a pedra no nosso sapato é a política de proteção ao agricultor europeu e americano. Embora na França, os candidatos às eleições de todas as correntes ideológicas estejam unidos na defesa destas subvenções, a vergonha mundial representada pelo protecionismo à agricultura e ao agronegócio dos países desenvolvidos está cada vez mais difícil de ser defendida. Mesmo nos Estados Unidos e na União Européia, onde se encontram os bunkers desta política discriminatória, já está cada vez mais difícil de se manter esta questão intocada. Não foi por acaso que na reunião da OMC realizada no final do ano passado em Doha, no Catar, decidiu-se pela criação de uma nova rodada de negociações sobre o acesso aos mercados agrícolas. Mais recentemente, o Fórum Econômico Mundial, realizado em Nova York, ensejou um inusitado documento a favor da reforma dos mercados agrícolas. Neste documento, lançado por uma força tarefa composta por dirigentes de mais de 30 entidades multilaterais e não governamentais, está explicitado que o fim das políticas que distorcem o comércio agrícola podem representar um incremento de pelo menos US$ 150 bilhões de dólares nas economias em desenvolvimento. Embora, ainda tenhamos uma certa síndrome de Jeca Tatu – teimamos em subestimar nossas virtudes e em endeusar a capacidade alheia, haveremos de aproveitar este momento histórico e acabar de uma vez por toda com o preconceito urbano que tem relegado a um segundo plano a nossa galinha dos ovos de ouro. O caminho para a concretização do velho sonho do Brasil em tornar-se uma potência econômica do século XXI passa pela agricultura e pelo agronegócio. Neste campo está a nossa verdadeira vocação econômica e aí reside o grande salto de qualidade que poderemos dar neste novo milênio. Não é a toa que o agronegócio brasileiro, apesar do absoluto descaso do governo, tem sido o grande responsável por superávites da balança comercial ou, na pior das hipóteses, por minorar impactos dos déficits. Se o Brasil fosse uma empresa poderíamos dizer que o agronegócio é o seu ganha pão: o setor onde ele é eficiente e gera receita para as despesas do dia-a-dia, além de contribuir para o pagamento das dívidas do cartão de crédito, do cheque especial etc e lhe permitir acesso a financiamentos para expansão dos negócios. O agronegócio brasileiro é imbatível. Seja no açúcar, no frango, na soja, no suco de laranja ou na carne, produzimos com qualidade, eficiência e custos mais baixos do que a média mundial. Se é assim, então qual a razão de não se aumentar a produção, com a conseqüente conquista de novos mercados? O motivo é um só: cientes de sua incapacidade de competir, os países desenvolvidos subsidiam a produção e até mesmo a exportação dos seus produtos agrícolas e agro-industriais, solapando a possibilidade de gerarmos mais receita e sermos economicamente mais independentes e capazes de influenciar decisivamente no jogo econômico mundial. Esta é a face negra da chamada globalização: a abertura do mercado global para produtos industrializados e serviços – de custos mais baixos e tecnologias mais avançadas, do chamado grupo de países ricos, não foi acompanhada por uma política igual em relação aos produtos agrícolas. O resultado disso tem sido a ausência de perspectiva, o aprofundamento da miséria e das desigualdades sociais no mundo, na medida em se sufoca a possibilidade de crescimento de economias fundadas na agricultura. Estou convencido de que este é um modelo esgotado e sua derrocada final depende das articulações dos interessados. Como o principal deles, o Brasil, por meio de seu governo e de todo o setor produtivo, deve se articular interna e externamente, com governos, setores privados e consumidores para encurtar a negociação e pavimentar o acesso rápido a novos mercados. Para que se tenha uma idéia do que isso significa, seguem dois exemplos: o da soja e do açúcar. No caso da soja e dos seus derivados, os US$ 5,2 bilhões de receita gerados pela exportação em 2001, poderiam ser acrescidos em mais de US$ 1 bilhão/ano, apenas com o fim da subvenção ao produtor americano. No açúcar, o Ministério da Agricultura brasileiro estima que o Brasil está deixando de exportar anualmente US$ 1 bilhão, por conta dos subsídios da União Européia ao seu setor açucareiro. Nos últimos tempos têm sido inúmeras as notícias nos jornais, nas revistas e nas Tvs sobre a excelência do nosso negócio e sobre a vergonhosa política de subsídios dos países ricos. É um avanço, tratando-se do setor agrícola, que até outro dia era tratado apenas como um sorvedouro de dinheiro público e ícone do atraso. Mas ainda é preciso mais. A sociedade brasileira precisa se mobilizar no sentido de exigir do próximo Presidente da República uma prioridade absoluta ao agronegócio. Isto é chave para inverter a lógica de dependência e subserviência ao capital internacional. Sem querer desmerecer questões fundamentais como segurança, saúde e emprego, lembro que só serão resolvidas, de fato, caso o País encontre o caminho do crescimento econômico sustentado. Para nós este é o caminho da roça. |
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