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A (I)LÓGICA DO GOVERNO FEDERAL José
Maurício de Toledo Murgel Publicado em "A GRANJA", outubro/2.001. De há muito os estudiosos da situação energética brasileira vêm alertando o Governo Federal da necessidade da retomada dos investimentos na área, sob pena da falta de energia elétrica; seus argumentos me parecem claros e irrefutáveis; a população brasileira cresce há uma razão de cerca de dois milhões de habitantes por ano. Todos os anos, centenas de milhares de jovens chegam à idade de ingressar no mercado de trabalho; nosso Produto Interno Bruto, graças a Deus, vem crescendo. Estes fatos fazem com que a demanda energética seja crescente. Todo o contingente populacional que inicia a vida profissional é um consumidor em potencial; esta é a razão da premente necessidade da instalação de novas fontes produtoras de energia elétrica. Sob esta ótica, mas só agora, o Governo Federal está bonificando aqueles que economizam energia elétrica, apenando os que não têm seu consumo médio diminuído. Esta atitude é injusta e mal feita; vejamos. Tomemos, por exemplo, duas famílias hipotéticas, morando na mesma cidade, em casas semelhantes e com o mesmo número de pessoas; uma família tem hábitos econômicos e a outra é, decididamente, perdulária, além de optar por excessivo conforto. A família perdulária tem aquecimento central elétrico que permanece ligado 24 horas por dia, ar-condicionado em todos os cômodos, todas as suas lâmpadas são incandescentes e de alta potência, ficando acesa mesmo em cômodos onde não existam pessoas, todos os moradores têm televisão em seus quartos e sua geladeira é de grande consumo, aliada a uma manutenção inadequada. Seu consumo médio é de 1.000 Kw/mês. A família econômica, ao contrário, de há muito tem lâmpadas fluorescentes e de baixo consumo, permanecendo acesas somente na presença de usuários; não há ar-condicionado ou aquecimento central elétrico, ao contrário, seu aquecimento é solar. Uma única televisão serve a todos os moradores. Seu consumo médio é de 200 Kw/mês. Dentro do atual sistema, a primeira família deve reduzir seu consumo para 800 Kw/mês, meta fácil de ser atingida, é só desligar o aquecimento central e racionalizar o uso da geladeira, das televisões e das lâmpadas que podem ser trocadas por modelos mais econômicos. A segunda família deve reduzir seu consumo para 180 Kw/mês, meta difícil de ser atingida. Neste caso, a família que sempre foi econômica não tem como se enquadrar na meta estabelecida e será apenada; já a família perdulária atingirá, facilmente, seu objetivo, embora continue a gastar quatro vezes mais que a outra; o consumo médio por pessoa, que em síntese é o que interessa, será maior. Num exemplo real, a imprensa noticiou, como uma grande vitória, que a Presidência da República já no primeiro mês de racionamento, economizou cerca de 30% do seu consumo médio. Seria um ótimo exemplo se este consumo médio, de acordo com a mesma fonte, não fosse superior a 40.000 Kw/mês. Dizem que por "questões estéticas", os prédios da Presidência da República mantinham todas as suas lâmpadas acesas por todo o período noturno. Além disto, o Palácio da Alvorada, mercê de um projeto inadequado, é coberto por lajes de concreto que o transformam numa grande estufa, obrigando à utilização de potentes sistemas centrais de ar-condicionado em todas as suas salas, mesmo naquelas desocupadas. Foi só apagar as fortes luminárias externas e a meta foi atingida. Numa previsão futura, vemos que agora devemos desperdiçar água, gás, etc. pois se vier um racionamento, com facilidade atingiremos uma meta de redução. Se já estamos racionalizando e economizando, poderemos pagar multa num futuro próximo. O sistema adotado, antes de tudo é injusto; quem "paga o pato" são aqueles que já economizavam! |
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