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O PAU BRASIL: SUAS LENDAS E SEUS MITOS

José Maurício de Toledo Murgel
Diretor do IRMA - Instituto Rural de Meio Ambiente
Fone/Fax:- (14) 3622-1356
E-mail: jmmurgel@irma.eng.br

Publicado em: A GRANJA, junho/2.000.

Devido a cor de brasa do seu cerne, a árvore foi chamada Pau-brasil. De sua madeira era extraída o melhor corante vermelho de todas as espécies vegetais. Sem dúvida era a mais nobre madeira brasileira e, até hoje, museus de todo o mundo exibem finos móveis fabricados com sua madeira. Devido sua alta exploração, está, praticamente extinto de nossas matas. Estas são as principais lendas ensinadas para nossas crianças, difundidas em centenas de publicações, algumas até sérias...

O Pau-brasil, Caesalpinia echinata, é uma madeira cujo cerne tem a cor amarelo-ouro, nunca avermelhada ou escura, como dizem muitos.

O melhor corante vermelho do século XIV era extraído de um "primo" do Pau- brasil, a Tintureira ou Sapam (Caesalpinia tinctoria = Caesalpinia sappan, Linn.). O corante vermelho do Pau-brasil era extraído por imersão da sua serragem em água fervente; já o Sapam, além desta técnica, fornecia um corante de melhor qualidade se extraído de um material esponjoso, da textura do "isopor", existente no centro do seu cerne.

Sobre estas divergências, devemos nos valer de escritos antigos. "Colóquios dos Simples e Drogas da Índia", um dos mais antigos livros editados sobre plantas medicinais e especiarias, escrito por Garcia da Orta e editado em Goa, Índia, no longínquo abril de 1.563, cuja segunda e última edição veio a luz em Lisboa em 1.891, tratando dos perfumes e tintas extraídos das plantas da Índia, cita (na ortografia de 1.891): (Este livro foi escrito em forma de colóquio ou conversa, daí seu título).

Ruano:- " Como sabeis que este páo vermelho he sandalo e não brazil, pois nenhum delles tem cheiro?

Orta:- "Verdade he que nenhum cheira bem, mas o brazil he mais doce, e mais tinge; e o sandalo nem he doce, nem tinge. E deste modo perdeo hum meu amigo mercador, porque trouxe sandalo vermelho por brazil, e os tintoreiros lho compráram, e como viram que não tingia, tornaramlho a engeitar, e asi ficou por vender a mercadoria"

Na Edição Portuguesa, de 1.891, patrocinada e anotada pelo Conde de Ficalho, temos um notável esclarecimento sobre este trecho:
"O brazil, de que Orta falla apenas de passagem, merece no entanto uma nota especial. Era a madeira de uma árvore da família das Leguminosae, Caesalpinia sappan, Linn., madeira empregada na tinturaria, e conhecida no commercio europeu, desde os antigos tempos da idade média, pelos nomes de brazil, brésil, em italiano verzino, os quaes se julgaram derivados de brasa ou braise pela cor vermelha da madeira".
Mais adiante:-
"O brazil asiatico havia sido conhecido dos portuguezes e designado por este nome antes do descobrimento da America..."

Devido às facilidades de transporte e distância, a madeira da América suplantou aquela de procedência asiática, até ser substituída por corantes artificiais.

Nos museus da Europa, muitos móveis de fina confecção, rotulados como sendo de Pau-brasil, são, na verdade feitos de Jacarandá da Bahia (Dalbergia nigra), este sim, ao lado de outras madeiras dos gêneros Dalbergia e Machaerium, como Caviúna ou Cabiúna, Jacarandá-paulista, Jacarandá-preto, são madeiras de primeira qualidade para confecção de móveis e em marchetaria. No início da colonização, a mais nobre das nossas madeiras era o Pau-jantar ou Mucitaíba, (Zollernia ilicifolia) madeira preta, quase como o ébano, de grande dureza e resistência, utilizada para a confecção de engrenagens e grandes parafusos para nossa insipiente agroindústria; até hoje os velhos marceneiros gabam-se de possuir plainas e garlopas cujo cepo foi feito com Pau-jantar!

Finalmente, o mito da extinção da espécie. O Pau-brasil ocorre nas áreas baixas da mata atlântica, desde o norte do Estado do Rio de Janeiro, até o Rio Grande do Norte. Se é certo que foi muito explorado para a produção de corantes, até hoje é muito encontrado nas matas da baixada fluminense. Há alguns anos, no Município de Araruama, RJ, tive oportunidade de visitar uma propriedade agrícola onde o Pau-brasil era explorado em manejo sustentado para venda de palanques e esticadores de cerca! Desta floresta, quase homogênea, as mudas eram abundantes no sub-bosque; em menos de um metro quadrado de chão, consegui cerca de 2 mil mudas, de raiz nua, para o Horto Florestal de Jahu, SP, na época sob minha direção. Posteriormente este horto produzia mais de 5 mil mudas de Pau-brasil, por ano, para distribuição e venda através do Instituto Florestal do Estado de São Paulo. Costumo afirmar que se todas as mudas de Pau-brasil plantadas no "dia da árvore" tivessem vingado, a espécie seria mais abundante e disseminada que no ano do descobrimento...

 
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