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DESMITIFICANDO O EUCALIPTO

José Maurício de Toledo Murgel
Diretor do IRMA - Instituto Rural de Meio Ambiente
Fone/Fax:- (14) 3622-1356
E-mail: jmmurgel@irma.eng.br

Publicado em: A GRANJA, janeiro/2.000
O DIÁRIO DE RIBEIRÃO, dezembro/1.999

Sempre que alguém defende o uso do eucalipto como ótimo produtor de madeira, aparecem os xenófobos apedrejando-o por ser uma árvore exótica. Não se lembram, os detratores, de que ser exótico é, apenas, uma questão de geografia ou de divisa política. Se o Brasil fosse dividido em diversos países, espécies como o mogno, o jacarandá da Bahia e muitas outras seriam exóticas no "Brasil do Sul", por serem nativas do "Brasil do Norte" Em reflorestamento, o importante é a utilização de espécies adaptadas à região e ao solo que se pretende reflorestar.

O eucalipto pertence a um gênero de árvores, nativas da Oceania, principalmente da Austrália, com cerca de seiscentas espécies, das quais cerca de cento e oitenta foram introduzidas no Brasil. Estas árvores provocam uma reação interessante entre as pessoas; algumas consideram-na como a maior e desprezível praga, um verdadeiro flagelo de Deus, enquanto outras, consideram-na uma benção divina; grande fator de preservação ecológica.

O eucalipto foi introduzido comercialmente no Brasil no início do século, após demorados estudos, pelo engenheiro agrônomo Edmundo Navarro de Andrade, para fornecer lenha, dormentes e postes à companhia Paulista de Estradas de Ferro. Nesta época, as estradas de ferro eram ávidas de boa lenha para movimentar suas locomotivas a vapor. O consumo era tanto que algumas ferrovias chegavam a construir "ramais lenheiros", destinados exclusivamente à coleta e transporte de lenha. Como era de se esperar, em pouco tempo a lenha tornou-se escassa, cara e o que é pior, situada cada vez mais longe dos ramais férreos. Somente no Estado de São Paulo, chegaram a funcionar quarenta companhias férreas, não quarenta composições, mas quarenta companhias autônomas; Paulista, Mogiana, Sorocabana, Morro Agudo, Dumont, Noroeste, Araraquarense, Douradense, Bragantina, Ituana, São Paulo – Minas, etc. etc. Diante deste quadro, a Paulista contratou os serviços do notável engenheiro agrônomo, para resolvê-lo. Após estudar centenas de espécies, nativas e exóticas, Navarro chegou à conclusão que a árvore que melhor atendia suas necessidades pertencia ao gênero do eucalipto, oriundo da longínqua Austrália; era precoce, pouco exigente em solos e clima e produzia lenha uniforme de ótima qualidade. Em poucos anos a Paulista contava com quarenta milhões e seiscentas mil árvores plantadas em dezenove hortos florestais estrategicamente espalhados ao longo de suas linhas. Considera-se que o grande sucesso da Paulista deve-se, em parte, à fartura de lenha, boa e barata. Em pouco tempo as principais Companhias de Estradas de Ferro imitaram o exemplo e instalaram seus hortos florestais.

Se é certo que uma floresta homogênea não é o ideal para a preservação da fauna e da biodiversidade, é muito mais certo que, havendo lenha disponível, uniforme e de boa qualidade, a demanda sobre lenha nativa, oriunda de nossas florestas, é muito menor. Este é, em resumo, o papel e o fator de preservação do eucalipto.

Não se pretende e muito menos se aconselha, a remoção de matas nativas para o plantio do eucalipto. O ecologicamente correto é utilizar lenha de eucalipto para preservar nossas matas nativas.

O museu florestal mantido pela Paulista na cidade de Rio Claro, SP, está repleto de móveis e utensílios feitos exclusivamente com o eucalipto; na África do Sul, o eucalipto é usado como madeira nobre. Outro Navarro, o Armando Navarro Sampaio, sobrinho do pioneiro, também de saudosa memória, e chefe por muitos anos do Serviço Florestal da Paulista, grande técnico e emérito gozador, sobre o eucalipto e a sua precocidade, dizia: "O eucalipto é a única árvore que com vinte anos fica centenária..."

 
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